O que vale para a religião e a ciência vale igualmente, como não poderia deixar de valer, para a sociedade.
A sociedade, para o idiota polivalente, é uma superfície lisa onde todas as diferenças não apenas são artificiais (como, em certa medida, de facto o são), mas igualmente elimináveis da primeira à última. Dito por outras palavras, é possível aos seus olhos as sociedades viverem numa espécie de assimbolia generalizada.
Mais do que possível é desejável.
E, mais que desejável, tal é o resultado necessário do progresso em direcção ao Bem. Ora, é certamente verdade que uma sociedade que viva em perpétuo estado de hiper-simbolia, onde todas as diferenças sejam vistas como naturais e absolutas, é algo próximo do horror, um horror que desgraçadamente foi mais a regra do que a excepção na história da humanidade.
Mas não é menos verdade que nenhuma sociedade pode viver em permanente estado de assimbolia e de indiferenciação, já que o resultado imediato de tal estado, de um estado em que todas as diferenças no interior da sociedade se esbatem, é a incalculável multiplicação da violência no seu seio. Esta simples constatação é incompreensível ao idiota polivalente.
Paulo Tunhas in Observador